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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

História e Geografia do Reisado do ESCUTA: uma experiência de Arte, Cultura e Educação Popular na periferia de Fortaleza – 1990-2015.

Primeira formação do nosso Reisado em 1990.


O Reisado do ESCUTA (Espaço Cultural Frei Tito de Alencar) é um Reisado urbano, na periferia de Fortaleza, vivenciado a partir das lembranças de memórias afetivas de vivências das manifestações das festividades natalinas no interior do Estado do Ceará. No ano de 1990, ao relembrar em uma conversa informal das senhoras da comunidade a época em que faziam a chamada “Tiração de Reis” nas suas cidades natal do interior do Ceará, como, por exemplo, Itapajé, Ibiapina, Itarema, Canindé, Trairi etc., houve a ideia de iniciar o Reisado nas madrugadas de porta-em-porta pelas ruas do Pici, cantando, tocando e dançando as músicas de Reisado da tradição da Cultura Popular cearense dos dias 02 a 06 de Janeiro, pedindo as oferendas ou esmolas, celebrando a Festa cristã em homenagem ao nascimento do Menino Jesus, lembrando o chamado “Dia da Gratidão”. Nesta trajetória, o que hoje é conhecido como “Reisado do ESCUTA” foi ganhando as suas características próprias, utilizando o mesmo figurino colorido desde o início que une a tradição portuguesa, africana, cigana e indígena, ganhando estilo próprio também as canções que, repassadas pela oralidade, ganharam sua tonalidade diferenciada, utilizando também outras canções populares, diferentemente de outros Reisados e que vai se mantendo a cada nova geração; 

Há outras manifestações de Reisado Popular, como, por exemplo, o Reisado de Caretas, o Reisado de Congo, o Reisado de Espadas etc., todos com as suas características próprias. Uma das singularidades características do Reisado do ESCUTA com as suas especificidades leva em conta, sobretudo, que ele é formado a partir de uma organização comunitária que historicamente preza pela Educação Popular. Desse modo, para além da mera representação da “Tirada de Reis” dentro da Cultura Popular, o Reisado do ESCUTA busca também fortalecer os valores da organização comunitária com a intergeracionalidade, junto com as crianças, jovens, adultos e idosos, mas também de forma crítica, levando em consideração que não há uma Educação neutra, pois todas tem um viés político-ideológico, como dizia Paulo Freire, de modo que a Cultura Popular esteja também a serviço do combate ao racismo, ao machismo, ao sexismo, à intolerância religiosa, à homofobia etc., prezando pelos valores dos Direitos Humanos no engajamento comunitário que se desenvolve também a partir do fazer artístico.

Assim, o Reisado do ESCUTA, que começou em Janeiro de 1990, teve a sua continuidade seguida a cada ano, renovando-se com as novas gerações que foram se formando ao longo dos anos enquanto que as pessoas mais antigas iam repassando para as mais novas o modo de fazer o Reisado na Comunidade, que é dividido geograficamente de acordo com cada área do chamado Grande Pici, onde, além da Comunidade da Fumaça, onde fica situado o ESCUTA, envolve também as subdivisões do bairro, como, por exemplo, a Comunidade da Entrada da Lua, a Comunidade Margarida Alves, a Comunidade do Feijão, o Beco Tranquilo, a Rua Vitória etc. e também em algumas casas no Bairro Jockey Clube, aonde moram alguns integrantes. Desse modo, o aprendizado com o Reisado foi sendo repassado a cada geração, formando uma fraternidade e uma grande amizade na Comunidade, que também fortalece o engajamento comunitário ao longo do ano.

Com as ofertas e os alimentos arrecadados nas madrugadas, a Comunidade Frei Tito faz o seu planejamento anual, que serve também para a manutenção do grupo com a manutenção dos instrumentos, a conservação dos figurinos etc. Ou seja, o Reisado, para além da manifestação cultural do período festivo natalino, amplia-se de forma pedagógica ao longo dos anos. O espetáculo algumas vezes apresentou-se em outros locais culturais da cidade, aparecendo também em matérias de TV e jornais, tendo também um CD amador gravado e repassado para outras comunidades que em alguns períodos também fizeram os seus Reisados. Em outras palavras, o que começou de forma espontânea, acabou por se tornar ao longo dos anos algo cada vez mais organizado, agregando grupos com lazer, prazer, alegria, fraternidade e amizade, ampliando o seu significado dentro da organização comunitária, trazendo valores e contribuindo com a formação humana individual e comunitária.

Em comemoração aos 25 anos do Reisado do ESCUTA, foi gravado também um CD com novas músicas em parceria com o Jairo de Carvalho e Elaine Vigianni do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos) e outros músicos da Cidade, como Pingo de Fortaleza, Eliahne Brasileiro, Inês Mapurunga e Descartes Gadelha. O novo CD, que foi produzido com o apoio da WM Cultural, foi gravado com a nova formação do Grupo de Música do ESCUTA, que se formou a partir das oficinas de percussão no ano de 2013, unindo gerações diferentes e que deu sequência com a formatação criada para o espetáculo de Bumba-meu-boi e do Pastoril, que também fazem parte da programação anual dos festejos da Cultura Popular realizados pelo ESCUTA.

A partir desta experiência informal iniciada em 1990, podemos observar diversos elementos de uma formação pedagógica vivencial repassada para várias gerações diferentes, unindo Arte, Religiosidade, Cultura Popular e Educação Popular, na medida em que há um processo educativo contínuo com aprendizado repassado, sobretudo, através da oralidade, com a formação cultural, na construção de valores como a solidariedade, a generosidade, a fraternidade e a igualdade, dentre outros, de modo que a vivência aberta de uma manifestação da Cultura Popular cearense pelas ruas da periferia de Fortaleza proporciona, além da alegria e da fraternidade envolvidas, também a possibilidade de aprendizado através da sensibilidade artística envolvida, ampliando afetos e ajudando a construir uma organização comunitária que se mantém durante outros períodos e não apenas durante a manifestação, sendo a vivência do Reisado do ESCUTA também uma formação para a vida. Neste horizonte, atuando na periferia de Fortaleza, o nosso Reisado é também uma continuação da luta de Frei Tito de Alencar, que tanto gostava da Cultura Popular cearense, pois Tito também apostava na Educação Popular como instrumento de luta na construção da boniteza e da alegria no mundo!

Músicas de Reisado do ESCUTA no CD "Jogueiros".

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

História das Mulheres de Todas as Cores que tem o Brilho da Lua – 1992-2015.

     O Grupo de Mulheres Brilho da Lua iniciou suas atividades no ano de 1992, coordenado pela Associação de Organizadores Sociais e Serviços – AMORA, na época em que houve a parceria com Projeto Prorenda da GTZ (Cooperação Técnica Alemã para o Desenvolvimento), que envolvia as organizações comunitárias locais, a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado do Ceará com ações práticas de gestão participativa; Foi na praticidade técnica executada na área de Saúde Sanitária e Serviço Social realizando intervenções urbanísticas na Favela da Entrada da Lua, que se percebeu a participação maior de mulheres, o que veio a despertar a equipe do Prorenda a direcionar formações voltadas para as mulheres da comunidade, principalmente orientando-as sobre os cuidados e ações preventivas no campo da saúde, incluindo as plantas medicinais e direitos.

No decorrer das reuniões com as mulheres, aflorou o saber popular existente entre as mesmas, então vieram especialistas na área das plantas medicinais como a Dra. Profa. Auxiliadora do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), que identificou três doenças na Comunidade que poderiam ser tratadas com plantas medicinais, o Dr. Matos do Curso de Fitoterapia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Terapia Comunitária do Dr. Prof. Adalberto Barreto, que contribuíram com a formação a partir da experiência das Quatro Varas, no Bairro Pirambu, que utiliza as plantas e o cuidado com a mente como elementos terapêuticos de tratamento preventivo e a cura de determinadas doenças. Houve também a formação com a Pastoral da Criança sobre alimentação enriquecida, com o aproveitamento de cascas, sementes, farelos e a manipulação de ervas para lambedores, pomadas e tinturas. Todas essas vivências entre parceiros, especialistas e a comunidade com o saber popular permitiu a elaboração de uma cartilha com as receitas populares e a orientação científica.

Com a participação maior das mulheres, surgiu a necessidade de uma organização popular, então, D. Marina, que havia participado da Jornada de Luta Contra a Fome no período de seca nos anos de 1980, sugere a criação do Grupo de Mulheres Brilho da Lua, sendo acatado com o objetivo de realizar ações voltadas para os interesses comunitários e políticas feministas de direitos e cidadania capazes de contemplar estudo, formação, trabalho, renda, cultura, lazer, cuidados com a saúde etc.

Uma das primeiras intervenções práticas do Grupo foi criar canteiros de plantas medicinais em uma área de terra do Sítio Ipanema, resultando posteriormente na criação do Horto de Plantas Medicinais, que hoje se chama Raimunda Silva em homenagem póstuma à D. Nem, que foi uma das fundadoras do Grupo, e que fica localizado na Rua Piracicaba, 128, Pici – Fortaleza/CE, onde se desencadeou um processo de formação em educação alimentar, agroecologia, preservação do meio ambiente, gastronomia, fitoterapia, alfabetização de jovens e adultos, economia solidária e agricultura urbana, educando crianças no trato com a terra, adubagem e a produção alimentar orgânica.

O Grupo de Mulheres Brilho da Lua chega ao ano de 2015 se afirmando na configuração de linha feminista, tratando da formação de gênero, empreendedorismo na Socioeconomia Solidária, Agroecologia e a Cultura Popular, tendo como base metodológica a Educação Popular alinhado institucionalmente com o Espaço Cultural Frei Tito de Alencar – ESCUTA, que fica na Rua Noel Rosa, 150 – Pici – Fortaleza/CE.

O Grupo tem caráter informal e representativo composto por uma Coordenação de Articulação, Formação em Gênero, Equipe de Registro e Patrimônio, Equipe Financeira, Equipe de Empreendedorismo (produção e comercialização), Equipe do Horto de Plantas Medicinais, Equipe do Salão São Francisco e a Equipe do Bazaca. 

*Artigo escrito por Leonardo Sampaio e Lúcia Vasconcelos para a Revista do Bairro Antônio Bezerra.

Liduina, Carminha, Socorro, Valmira, Sueli, Fransquinha, Nice e Lúcia.
Liduina, Carminha, Socorro, Valmira, Sueli, Fransquinha, Nice e Lúcia, algumas integrantes do "Grupo de Mulheres de Todas as Cores que tem o Brilho da Lua" no Horto de Plantas Medicinais Raimunda Silva que fica no Pici - Fortaleza/CE.