O Banquete Literário do ESCUTA (Espaço Cultural Frei Tito de Alencar), surgiu em 2003 com o objetivo de compartilhar leituras e oportunizar espaço de reflexão e produção de conhecimento. A partir de sua retomada em Julho de 2015 acontece as Quartas 19h na nossa sede, na Rua Noel Rosa, 150 - Pici - Fortaleza/CE. O Banquete faz parte do Projeto Círculos de Leitura e Fantasia ou de como fazer leituras lúdicas na Biblioteca com crianças e adolescentes, com o apoio do Ministério da Cultura
Ensaio do Reisado para 2016 - Participaram: José Augusto, Herbert Hipólito, Leonardo Sampaio, Edvânia Ayres, João Paulo Roque, Saulo Nicodemos, Leandson Sampaio, Deci Corpi, Ana Luísa, Liandra Brito, Jairo Marques.
Texto lido no Banquete Literário do dia 16.12.15 Capítulo
2: Alfabetização de adultos e bibliotecas populares – uma introdução[1]
“O
mito da neutralidade da educação, que leva à negação da natureza política do processo
educativo e a tomá-lo como um quefazer puro, em que nos engajamos a serviço da
humanidade entendida como uma abstração é o ponto de partida para compreendermos
as diferenças fundamentais entre uma prática ingênua, uma prática ‘astuta’ e
outra crítica.
Do
ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo
quanto negar o caráter educativo do ato político. Isto não significa, porém, que
a natureza política do processo educativo e o caráter educativo do ato político
esgotem a compreensão daquele processo e deste ato. Isto significa ser
impossível, de um lado, como já salientei, uma educação neutra, que se diga a
serviço da humanidade, dos seres humanos em geral; de outro, uma prática
política esvaziada de significação educativa. Neste sentido é que todo partido
político é sempre educador e, como tal, sua proposta política vai ganhando
carne ou não na relação entre os atos de denunciar e de anunciar. Mas é neste
sentido também que, tanto no caso do processo educativo quanto no do ato
político, uma das questões fundamentais seja a clareza em torno de a favor
de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, fazemos a educação
e de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, desenvolvemos
a atividade política.
Quanto
mais ganhamos esta clareza através da prática, tanto mais percebemos a
impossibilidade de separar o inseparável: a educação da política. Entendemos
então, facilmente, não ser possível pensar, sequer, a educação, sem que se
esteja atento à questão do poder. Não foi, por exemplo - costumo sempre dizer
-, a educação burguesa a que criou ou enformou a burguesia, mas a burguesia
que, chegando ao poder, teve o poder de sistematizar a sua educação. Os
burgueses, antes da tomada do poder, simplesmente não poderiam esperar da
aristocracia no poder que pusesse em prática a educação que lhes interessava. A
educação burguesa, por outro lado, começou a se constituir, historicamente,
muito antes mesmo da tomada do poder pela burguesia. Sua sistematização e
generalização é que só foram viáveis com a burguesia como classe dominante e
não mais contestatória.
Mas
se, do ponto de vista critico, não é possível pensar sequer a educação sem que
se pense a questão do poder; se não é possível compreender a educação como uma prática
autônoma ou neutra, isto não significa, de modo algum, que a educação sistemática
seja uma pura reprodutora da ideologia dominante. As relações entre a educação
enquanto subsistema e o sistema maior são relações dinâmicas, contraditórias e
não mecânicas. A educação reproduz a ideologia dominante, é certo, mas não faz
apenas isto. Nem mesmo em sociedades altamente modernizadas, com classes
dominantes realmente competentes e conscientes do papel da educação, ela é apenas
reprodutora da ideologia daquelas classes. As contradições que caracterizam a sociedade
como está sendo penetram a intimidade das instituições pedagógicas em que a educação
sistemática se está dando e alteram o seu papel ou o seu esforço reprodutor da
ideologia dominante.
Na
medida em que compreendemos a educação, de um lado, reproduzindo a ideologia dominante,
mas, de outro, proporcionando, independentemente da intenção de quem tem o
poder, a negação daquela ideologia (ou o seu desvelamento) pela confrontação entre
ela e a realidade (como de fato está sendo e não como o discurso oficial diz
que ela é), realidade vivida pelos educandos e pelos educadores, percebemos a inviabilidade
de uma educação neutra. A partir deste momento, falar da impossível neutralidade
da educação já não nos assusta ou intimida. É que o fato de não ser o educador
um agente neutro não significa, necessariamente, que deve ser um manipulador. A
opção realmente libertadora nem se realiza através de uma prática manipuladora
nem tampouco por meio de uma prática espontaneísta. O espontaneísmo é
licencioso, por isso irresponsável. O que temos de fazer, então, enquanto
educadoras ou educadores, é aclarar, assumindo a nossa opção, que é política, e
sermos coerentes com ela, na prática.
A
questão da coerência entre a opção proclamada e a prática é uma das exigências que
educadores críticos se fazem a si mesmos. É que sabem muito bem que não é o discurso
o que ajuíza a prática, mas a prática que ajuíza o discurso. Nem sempre,
infelizmente, muitos de nós, educadoras e educadores que proclamamos uma opção
democrática, temos uma prática em coerência com o nosso discurso avançado. Daí
que o nosso discurso, incoerente com a nossa prática, vire puro palavreado. Daí
que, muitas vezes, as nossas palavras ‘inflamadas’, porém contraditadas por
nossa prática autoritária, entrem por um ouvido e saiam pelo outro - os ouvidos
das massas populares, cansadas, neste país, do descaso e do desrespeito com que
há quatrocentos e oitenta anos vêm sendo tratadas pelo arbítrio e pela arrogância
dos poderosos.”
[1] Palestra
apresentada no XI Congresso Brasileiro de biblioteconomia e Documentação,
realizado em João Pessoa em janeiro de 1982.
Texto do Banquete Literário do ESCUTA do dia 02.12.15.
"Novembro é
oficialmente o Mês da Consciência Negra no Brasil. Apesar de ser importante e
necessária, especialmente por se tratar de um país que teve séculos de
escravidão de pessoas negras, essa data ainda é bastante incômoda para uma
parcela da população. Mesmo assim, o mês de novembro mobiliza o movimento negro
e desperta um interesse temporário nas escolas, instituições e noticiários, que
costumam abordar o tema do racismo superficialmente no período próximo ao dia
20.
Aqueles que
falam dessa data muitas vezes se recordam de Zumbi dos Palmares, que é o grande
ícone da luta contra o racismo por sua resistência contra a escravidão. Mesmo
na escola, muitos ouvimos falar de Zumbi e aprendemos que ele foi líder do
Quilombo de Palmares, onde negras e negros que fugiam da escravidão podiam
encontrar refúgio e organização política. No entanto, pouquíssimos sabem de
quem se tratava Dandara dos Palmares, uma figura tão importante quanto Zumbi.
Dandara foi
esposa de Zumbi e, como ele, também lutou com armas pela libertação total das
negras e negros no Brasil; liderava mulheres e homens, também tinha objetivos
que iam às raízes do problema e, sobretudo, não se encaixava nos padrões de
gênero que ainda hoje são impostos às mulheres. E é precisamente pela marca do
machismo que Dandara não é reconhecida ou sequer estudada nas escolas.
Lamentavelmente, nem mesmo os movimentos negro e feminista mencionam Dandara
com a frequência que deveriam. De um lado, o machismo, que embora conte com o
trabalho árduo das mulheres negras, não lhes oferece posição de destaque e voz
de decisão. Do outro, o racismo, que só tem memória para mulheres brancas.
Nós,
mulheres negras, crescemos sem nos encontrarmos nos livros de história, poesia,
literatura ou sociologia. O machismo racista da sociedade parece nos dizer que
não temos o direito de encontrar representatividade e inspiração para rompermos
as amarras da discriminação institucional. Muitas sabemos de Dandara e outras
mulheres negras importantes somente devido a nossas próprias pesquisas solitárias,
ávidas por descobrir. E, infelizmente, somos nós as mesmas pessoas que lutam
para que essas mulheres não sejam apagadas da história.
Alguns
pesquisadores, como o professor Kleber Henrique, evidenciam o papel dessa
grande líder e falam de sua sede por liberdade. Mas salientam que até hoje não
se tem conhecimento de como era o seu rosto ou de onde veio. Se Dandara fosse
uma mulher negra contemporânea, provavelmente seria mal vista por todos que se
negam a enxergar o racismo. Dandara não queria acordos pela metade e nem se
vendia em troca de libertação parcial. Morreu como a heroína que foi em vida e,
graças à sua luta, hoje temos força para continuar a batalha contra o racismo
brasileiro.
Portanto,
me recuso a aceitar que Dandara seja figura esquecida ou que continue sendo
lembrada sob a sombra masculina de Zumbi. A mulher negra quer e conquista seu
espaço, pois tem força, inteligência e capacidade para romper com paradigmas
machistas e racistas. O mês da Consciência Negra precisa ser cada vez mais o
mês de Dandara dos Palmares, da autonomia absoluta da mulher negra e da
completa liberdade feminina, que protagoniza as trincheiras da resistência
contra a discriminação por cor e gênero. Dandara vive."
Princesa da beleza negra, guerreira, líder forte, poder transformador Encanta o quilombo, mostra de frente tua garra
que dá força pra lutar Despindo as mentes da submissão, mulher negra,
quilombola de exjá Yansã beijou Xangô, arrancou-lhe as armas, pôs
em punhos e lhe dominou
Dandara, Dandara, Dandara, Dandara
Transfere tua essência como exemplo as mulheres
que se negam a lutar As negras oprimidas em favelas e escolas,
domésticas do lar Junta e organiza por que juntas são mais uma,
com mais força e maior Romper a hipocrisia da autoridade que a
burguesia vai se aniquilar
Seus olhos negros firmes da esperança da vitória
que está para chegar Que sambam sobre os peitos dos homens fortes e
guerreiros querendo te conquistar Tua força é divina e ancestral e pega fogo e é
fogo de orixá Vem com teu sorriso, abre os braços, solta as
tranças vem de novo me acalenta
Lemos o texto "E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi?" e escutamos a canção "Dandara" da banda N'Zambi. Participaram: Leonardo Sampaio, Zé Augusto, Leandson Sampaio e Ana Luísa.
Circula pela web essa história que nos fala sobre o significado da
palavra “Ubuntu”, de origem africana.
Um antropólogo que estava estudando os hábitos e costumes de uma tribo
africana vivia cercado por crianças na maioria dos dias e decidiu fazer um jogo
com elas. Comprou doces da cidade mais próxima e colocou tudo em uma cesta
decorada no pé de uma árvore.
Depois ele chamou as crianças e sugeriu o jogo que ocorreria assim:
quando o antropólogo dissesse “já”, as crianças deveriam correr para a árvore e
o primeiro a chegar lá pode ter todos os doces.
As crianças se alinharam à espera do sinal. Quando o antropólogo disse
“já”, todas as crianças pegaram umas às outras pela mão e correram em conjunto
para a árvore. Todas chegaram ao mesmo tempo, dividiram os doces, sentaram-se e
começaram a mastigar felizes.
O antropólogo foi até as crianças e perguntou por que eles correram
juntos quando qualquer uma delas poderia ter tido os doces só para eles.
As crianças responderam: “Ubuntu. Como pode qualquer um de nós
ficaria feliz se todos os outros ficariam tristes?”
Ubuntu é uma filosofia das tribos africanas que pode ser resumido como
“Eu sou o que sou por causa de quem todos nós somos.”
O Bispo Desmond Tutu deu esta explicação em 2008: “Uma das coisas
em nosso país é o Ubuntu – a essência do ser humano. Ubuntu fala principalmente
sobre o fato de que você não pode existir como um ser humano de forma
isolada. Ela fala sobre nossa interconexão. Você não pode ser humano
sozinho, e quando você tem essa qualidade – Ubuntu – você é conhecido por sua
generosidade. Nós pensamos de nós mesmos muito frequentemente, como
indivíduos, apenas, separados uns dos outros, enquanto você está conectado e o
que você faz afeta o mundo todo. Quando você faz bem, ela se espalha, é
para toda a humanidade.”
Banquete Literário na Semana da Consciência Negra sobre "Ubuntu, a filosofia africana". Participaram: José Augusto, Leonardo Sampaio, Leandson Sampaio e William Leonan.
Assistimos ao vídeo do nosso Pastoril de 2014 antes do ensaio do Pastoril com a educadora Karynny Cabral e avaliamos a apresentação do Pastoril no CUCA do Jangurussu no dia 08.11.15. Participaram: Juliana, Beatriz, Alice, Mayara, Grazielly, Maira, Leonardo, Leandson, Nicole e Ana Luísa.
Banquete Literário em que assistimos ao documentário sobre o Movimento MangueBeat de Pernambuco e lemos o texto "O Ciclo do Caranguejo" de Josué de Castro. Participaram deste Banquete: Jairo Marques, Leonardo Sampaio, Edvânia Ayres, José Augusto, Dennis, Alex, Joélia, Leandson e João Paulo.
A família Silva mora nos “mangues” da cidade do Recife, num “mocambo” que o chefe da família fez quando chegou de cima.
A família é originária do sertão. Desceu do Cariri, na sêca, perseguida pela fome. Fez uma paradinha no brejo, para tentar o trabalho nas usinas, mas não se pôde aguentar com os salários dessa zona, sem ter direito a plantar senão cana. Sem ter, nem ao menos o recurso do xiquexique e da macambira, como no sertão, para quando a fome apertasse.
Nesse tempo espalharam pelo interior um boato que o governo tinha criado um ministério para defender os interesses do trabalhador e que com os fiscais da lei, a vida na cidade estava uma beleza, trabalhador ganhando tanto que dava para comer até matar a fome. A família Silva ouviu esta estória, acreditou piamente e resolveu descer para a cidade, para gozar das vantagens que o governo bom oferece aos pobres.
Logo de chegada a família ouviu que a coisa era outra. Não havia dúvida que a cidade era bonita, com tanto palácio e as ruas fervilhando de automóveis. Mas a vida do operário, apertada como sempre. Muita coisa pros olhos, pouca coisa pra barriga.
O caboclo Zé Luís da Silva não quis desanimar. Adaptou-se: “Quem não tem remédio, remediado está.” Entrou na luta da cidade com todas as forças de que dispunha, mas as forças dele não rendiam que desse para a família viver com casa, roupa e comida. Casa só de 80 mil réis para cima, para comida uns 150 e os salários sem passarem de 5 mil réis por dia.
Começou o arrôcho. Só havia uma maneira de desapertar: era cair no mangue. No mangue não se paga casa, come-se caranguejo e anda-se quase nu. O mangue é um paraíso. Sem o cor-de-rosa e o azul do paraíso celeste, mas com as cores negras da lama, paraíso dos caranguejos.
No mangue o terreno não é de ninguém. É da maré. Quando ela enche, se estira e se espreguiça, alaga a terra terra toda, mas quando ela baixa e se encolhe, deixa descobertos os calombos mais altos. Num deles, o caboclo Zé Luís levantou o seu mocambo. As paredes de varas de mangue e lama amassada. A coberta de palha, capim seco e outros materiais que o monturo fornece. Tudo de graça encontrado ali mesmo numa bruta camaradagem com a natureza. O mangue é um camaradão. Dá tudo, casa e comida: mocambo e caranguejo.
Agora, quando o caboclo sai de manhã para o trabalho, já o resto da família cai no mundo. Os meninos vão pulando do jirau, abrindo a porta e caindo no mangue. Lavam as ramelas dos olhos com a água barrenta, fazem porcaria e pipi, ali mesmo, depois enterram os braços na lama a dentro para pegar caranguejos. Com as pernas e os braços atolados na lama, a família Silva está com a vida garantida. Zé Luís vai para o trabalho sossegado, porque deixa a família dentro da própria comida, atolada na lama fervilhante de caranguejos e siris.
Os mangues do Capibaribe são o paraíso do caranguejo. Se a terra foi feita pro homem, com tudo para bem servi-lo, também o mangue foi feito especialmente pro caranguejo. Tudo aí, é, foi ou está para ser caranguejo, inclusive o homem e a lama que vive nela. A lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela, vive nela. Cresce comendo lama, engordando com as porcarias dela, fazendo com lama a carninha branca de suas patas e a geléia esverdeada de suas vísceras pegajosas. Por outro lado o povo daí vive de pegar caranguejo, chupar-lhe as patas, comer e lamber os seus cascos até que fiquem limpos como um copo. E com a sua carne feita de lama fazer a carne do seu corpo e a carne do corpo de seus filhos. São cem mil indivíduos, cem mil cidadãos feitos de carne de caranguejo. O que o organismo rejeita, volta como detrito, para a lama do mangue, para virar caranguejo outra vez.
Nesta placidez de charco, identificada, unificada no ciclo do caranguejo, a família Silva vai vivendo, com a sua vida solucionada, como uma das etapas do ciclo maravilhoso. Cada elemento da família marcha dentro desse ciclo até o fim, até o dia de sua morte.
Nesse dia os vizinhos piedosos levarão aquela lama que deixou de viver, dentro dum caixão pro cemitério de Santo Amaro, onde ela seguirá as etapas do verme e da flor. Etapas demasiado poéticas, cheias duma poesia que o mangue não comportaria. Parte-se aparentemente, neste dia, o ciclo do caranguejo, mas os parentes que ficam, derramam caridosos as suas lágrimas no mangue para alimentar a lama que alimenta o ciclo do caranguejo.
Assistimos ao vídeo do nosso Pastoril de 2009 antes do ensaio do Pastoril com a educadora Karynny Cabral. Participaram: Juliana, Sara, Beatriz, Alice, Mayara, Grazielly, Luan, Leonardo e Leandson.
Oficina de isogravura com a estudante de Artes Visuais do IFCE Edvania Ayres no Banquete Literário do dia 07.10.15. O Banquete acontece as quartas a partir das 19h como parte da programação da Biblioteca Elizabeth Muniz com o apoio do Ministério da Cultura. Participaram: Saulo, Fiúza, José Augusto, Luan, Jairo, Herbert, Leandson, Leonardo e Miguel.