O Banquete Literário do ESCUTA (Espaço Cultural Frei Tito de Alencar), surgiu em 2003 com o objetivo de compartilhar leituras e oportunizar espaço de reflexão e produção de conhecimento. A partir de sua retomada em Julho de 2015 acontece as Quartas 19h na nossa sede, na Rua Noel Rosa, 150 - Pici - Fortaleza/CE. O Banquete faz parte do Projeto Círculos de Leitura e Fantasia ou de como fazer leituras lúdicas na Biblioteca com crianças e adolescentes, com o apoio do Ministério da Cultura
O Grupo de Mulheres
Brilho da Lua iniciou suas atividades no ano de 1992, coordenado pela
Associação de Organizadores Sociais e Serviços – AMORA, na época em que houve a
parceria com Projeto Prorenda da GTZ (Cooperação Técnica Alemã para o
Desenvolvimento), que envolvia as organizações comunitárias locais, a
Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado do Ceará com ações práticas de
gestão participativa; Foi na praticidade técnica executada na área de Saúde
Sanitária e Serviço Social realizando intervenções urbanísticas na Favela da
Entrada da Lua, que se percebeu a participação maior de mulheres, o que veio a
despertar a equipe do Prorenda a direcionar formações voltadas para as mulheres
da comunidade, principalmente orientando-as sobre os cuidados e ações
preventivas no campo da saúde, incluindo as plantas medicinais e direitos.
No decorrer das
reuniões com as mulheres, aflorou o saber popular existente entre as mesmas,
então vieram especialistas na área das plantas medicinais como a Dra. Profa. Auxiliadora
do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), que identificou três
doenças na Comunidade que poderiam ser tratadas com plantas medicinais, o Dr.
Matos do Curso de Fitoterapia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e a
Terapia Comunitária do Dr. Prof. Adalberto Barreto, que contribuíram com a
formação a partir da experiência das Quatro Varas, no Bairro Pirambu, que
utiliza as plantas e o cuidado com a mente como elementos terapêuticos de
tratamento preventivo e a cura de determinadas doenças. Houve também a formação
com a Pastoral da Criança sobre alimentação enriquecida, com o aproveitamento
de cascas, sementes, farelos e a manipulação de ervas para lambedores, pomadas
e tinturas. Todas essas vivências entre parceiros, especialistas e a comunidade
com o saber popular permitiu a elaboração de uma cartilha com as receitas
populares e a orientação científica.
Com a participação
maior das mulheres, surgiu a necessidade de uma organização popular, então, D.
Marina, que havia participado da Jornada de Luta Contra a Fome no período de
seca nos anos de 1980, sugere a criação do Grupo de Mulheres Brilho da Lua,
sendo acatado com o objetivo de realizar ações voltadas para os interesses
comunitários e políticas feministas de direitos e cidadania capazes de
contemplar estudo, formação, trabalho, renda, cultura, lazer, cuidados com a
saúde etc.
Uma das primeiras
intervenções práticas do Grupo foi criar canteiros de plantas medicinais em uma
área de terra do Sítio Ipanema, resultando posteriormente na criação do Horto
de Plantas Medicinais, que hoje se chama Raimunda Silva em homenagem póstuma à
D. Nem, que foi uma das fundadoras do Grupo, e que fica localizado na Rua
Piracicaba, 128, Pici – Fortaleza/CE, onde se desencadeou um processo de
formação em educação alimentar, agroecologia, preservação do meio ambiente,
gastronomia, fitoterapia, alfabetização de jovens e adultos, economia solidária
e agricultura urbana, educando crianças no trato com a terra, adubagem e a
produção alimentar orgânica.
O Grupo de Mulheres
Brilho da Lua chega ao ano de 2015 se afirmando na configuração de linha
feminista, tratando da formação de gênero, empreendedorismo na Socioeconomia
Solidária, Agroecologia e a Cultura Popular, tendo como base metodológica a Educação
Popular alinhado institucionalmente com o Espaço Cultural Frei Tito de Alencar
– ESCUTA, que fica na Rua Noel Rosa, 150 – Pici – Fortaleza/CE.
O Grupo tem caráter
informal e representativo composto por uma Coordenação de Articulação, Formação
em Gênero, Equipe de Registro e Patrimônio, Equipe Financeira, Equipe de Empreendedorismo
(produção e comercialização), Equipe do Horto de Plantas Medicinais, Equipe do
Salão São Francisco e a Equipe do Bazaca.
*Artigo escrito por Leonardo Sampaio e Lúcia Vasconcelos para a Revista do Bairro Antônio Bezerra.
Liduina, Carminha, Socorro, Valmira, Sueli, Fransquinha, Nice e Lúcia, algumas integrantes do "Grupo de Mulheres de Todas as Cores que tem o Brilho da Lua" no Horto de Plantas Medicinais Raimunda Silva que fica no Pici - Fortaleza/CE.
Vídeo assistido e discutido no Banquete Literário "Nós devemos tod@s ser feministas". Participaram deste Banquete: Lucas Wendel, Maria Júlia, Leandson Vasconcelos, Leonardo Sampaio, João Paulo Roque, Talita Freitas, Edvânia Ayres, José Augusto e Herbert Hipólito. O Banquete acontece sempre as Quartas a partir das 19h na nossa sede como parte da programação da Biblioteca Elizabeth Muniz.
Nós Deveríamos Todos Ser Feministas - Chimamanda Ngozi Adichie para TEDxEuston
Neste Banquete que foi realizado dentro da programação da nossa 25ª Semana Cultural assistimos ao filme "Batismo de Sangue", filme baseado no livro homônimo de Frei Betto que conta a história da resistência à Ditadura Civil-Militar no Brasil a partir da história de vida de Frei Tito de Alencar, frade dominicano mártir que dá nome ao nosso Espaço Cultural. Participaram deste Banquete: Leandson Vasconcelos, Julie Oliveira, Uly Castro, Ana Karla, José Augusto, Juliana de Freitas, Sarah de Freitas, Talita Freitas, Keverson de Andrade, Rejane Braga, Juscelino Dias, Sulivan Barbosa, Dennis Rodrigues, Francisca Edvânia, João Paulo Roque e Leonardo Sampaio.
Fotos do Banquete Literário no qual conversamos sobre a história do nome do ESCUTA, a história de Frei Tito de Alencar e a história do bairro Pici e suas peculiaridades; O Banquete acontece às quartas a partir de 19h na nossa sede (Rua Noel Rosa, 150 - Pici - Fortaleza) como parte da programação da nossa Biblioteca Elizabeth Muniz, que conta com o apoio do Ministério da Cultura.
Participaram deste Banquete: Herbert Hipólito, José Augusto, Elaine Vigianni, Jairo de Carvalho, Bárbara Letícia, Luan Vasconcelos, Lúcia Vasconcelos, Maria Julia, Talita Freitas, Joelia Souza, Leonardo Sampaio e Leandson Sampaio.
Depoimento de Frei Tito sobre a Ditadura no Brasil.
Lemos, discutimos o texto "O ESCUTA e a sua dimensão história - 1980-2015" e contamos a história do nosso nome. Participaram do Banquete: Leandson Sampaio, Maria Julia, Lucas Wendel, Talita Freitas, Lucas Fiúza, José Augusto, João Paulo Roque, Edvânia Freitas, Luan Vasconcelos e Karla Cabral.
O Espaço
Cultural Frei Tito de Alencar (ESCUTA), que fica situado na periferia de
Fortaleza, é uma organização sem fins lucrativos de natureza cultural, que
busca promover a arte, a cultura e a educação popular, e tem inserido
recentemente nas suas linhas de ações o esporte como forma de inserção social e
de construção da cidadania. O nome do Espaço homenageia o cearense Frei Tito de
Alencar, dominicano que com a sua doação e dedicação de vida se tornou mártir
social na luta contra a Ditadura Militar no Brasil.
Mas
nem sempre o ESCUTA foi uma instituição formalizada. O ESCUTA teve início em
1980 com a chegada de vários missionários e missionárias cristãos católicos na
Favela da Fumaça, no Pici, que era constituída apenas de becos e travessas, em
um ambiente extremamente desumano, formado por descendestes de índios Tapebas,
Tremembés, Tabajaras e afrodescendentes, possivelmente de diversos Quilombos
espalhados pelo Estado do Ceará. Foi nesse ajuntamento de
etnias que se formou a Fumaça e tornou-se
uma espécie de Quilombo, com toda a beleza negra, branca e indígena e suas
potencialidades religiosas e culturais. Faltava
a esses povos conhecimentos de seus direitos e deveres pra juntar aos seus
saberes e elevar o nível de sua organização. O grupo de missionários(as), a
partir da fé, colaborou para que ali se formasse a primeira organização
comunitária, que foi a Comunidade Eclesial de Base (CEB) da Fumaça. As CEBs
perceberam que uma das dificuldades locais era o analfabetismo de crianças,
adolescentes, jovens e adultos e é daí que nasce a Escolinha Comunitária Frei
Tito de Alencar, hoje ESCUTA - Espaço Cultural Frei Tito de Alencar, que como
primeira ação, formou jovens da comunidade com o método Paulo Freire, para
serem educadores e educadoras, não só do alfabeto e letramento, mas
principalmente da leitura crítica de mundo, utilizando-se na formação também a
Comunicação Popular com a Rádio Comunitária Frei Tito nas décadas de 1980 e
1990 e tornou-se ONG (Organização Não-Governamental) a partir de 2003.
Desde
então o ESCUTA vem realizando processos de formação continuada que envolve
diferentes dimensões da vida e da arte. A Educação Popular, presente na
formação de educadores e educadoras, inspirada nos Círculos de Cultura
freireanos para alfabetização, passa a se realizar a partir de 2003 como
formação de Animadores e Animadoras Culturais dos Círculos de Cultura Brincantes,
ainda tendo como inspiração os Círculos e Cultura freireanos, mas colocando a
arte, em especial, o teatro e a música, como mediação sensível para realizar
uma leitura de mundo crítica e lúdica.
A
vivência celebrativa da Espiritualidade Libertadora, fundamentada na
Teologia da Libertação, permitiu ao ESCUTA, mesmo enquanto Núcleo Eclesiástico (CEB’s),
romper com o conservadorismo religioso, celebrando a vida na proposta de Jesus
Cristo Libertador, refletindo e agindo de modo a superar as injustiças do Sistema
Capitalista, ultrapassando dessa forma os limites da Religião, ampliando o
olhar em diversas dimensões: política, econômica, artística, ecológica, de
gênero, afetiva, espiritual etc.
A
Cultura Popular presente nas manifestações culturais, que mobilizam crianças,
jovens, adultos e idosos, tornou-se importante elemento na construção do
Espaço, como, por exemplo, o Reisado do ESCUTA que completou em 2015, 25 anos
de realização; o Pastoril do ESCUTA que já completou 11 anos; O bumba-meu-boi
do ESCUTA que é encenado há 13 anos; a Semana Cultural do ESCUTA também
completa 25 anos em 2015.
A Arte
é um elemento de formação e de
profissionalização de muitos jovens nos últimos anos. Presente nas linguagens
da música (canto e percussão), teatro, danças populares, literatura, tem
consolidado além de um importante processo formativo por meio da formação de
grupos como o Grupo de Teatro e Música, que já existe há 13 anos. A experiência
do Banquete Literário com a Literatura, que teve início em 2003 e está sendo
retomado agora em 2015, como parte da programação da Biblioteca Elizabeth
Muniz, incentivou e incentiva a entrada das pessoas da comunidade nas
Universidades; Ao longo dos últimos 13 anos, o ESCUTA conta com a produção de
mais de 15 espetáculos teatrais, um grande repertório de canções da cultura
popular, como coco, ciranda, maracatu, reisado, bumba-meu-boi, afoxés, baião,
xote e xaxado, com a gravação de dois CDs, o último sendo finalizado agora em
2015, com canções autorais em parceria com músicos e artistas de Fortaleza.
Para 2015 ainda teremos a inserção da linguagem das Artes Visuais com oficinas
de fotografia e a formação de um grupo permanente nesta área.
A
partir de 2014 o Esporte entra na dinâmica de atividades do ESCUTA,
exercendo um importante papel de mobilização e integração entre, crianças,
adolescentes, jovens e suas famílias. Além de todo o benefício que a prática de
esporte traz para a vida das pessoas, como: saída do sedentarismo, prevenção de
inúmeras doenças, inclusive de ordem psicossomática, aumento da autoestima,
promove o sentimento de realização e de superação. É por isso que o ESCUTA tem investido
no Jiu-Jitsu e no Basquete como sendo ações potencializadoras da
participação, do envolvimento e da aproximação de novas pessoas, que ao se
mobilizarem pelo esporte vão tomando contato com o universo cultural, político
e social de ações que o ESCUTA desenvolve.
*Texto escrito coletivamente por: João
Paulo Roque, Edvânia Ayres, Leandson Sampaio, Lúcia Vasconcelos e Leonardo
Sampaio para o jornal de Agosto de 2015 “Tribuna Santa”, da Área Pastoral Santo
Antônio do Pici e discutido no Banquete Literário no dia 29.07.15.
Banquete Literário realizado no dia 22.07.15 no Espaço Cultural Frei Tito de Alencar. O Banquete acontece todas as quartas a partir das 19h na sede do ESCUTA, na Rua Noel Rosa, 150 - Pici - Fortaleza/CE, como parte da programação da nossa Biblioteca Elizabeth Muniz, com o apoio do Ministério da Cultura.
Participaram deste Banquete: José Augusto, Leandson Sampaio, Talita Freitas, Lucas Wendel, Júlia Sousa, Dennis Vasconcelos, Herbert Hipólito, Luan Vasconcelos, Lucas Fiúza e João Paulo Roque.
Participaram do Banquete: João Paulo, Edvânia Ayres, José Augusto, Maria Júlia, Lucas Wendel, Talita Freitas, Luan Vasconcelos, Leandson Sampaio e Karla Cabral.
Trecho do livro
de Paulo Freire “Pedagogia da Esperança – um reencontro com a Pedagogia do
Oprimido”, 1992.
“Entre as responsabilidades que, para
mim, o escrever propõe, para não dizer impõe, há uma que sempre assumo. A de,
já vivendo enquanto escrevo a coerência entre o escrevendo-se e o dito, o
feito, o fazendo-se, intensificar a necessidade desta coerência ao longo da
existência. A coerência não é, porém, imobilizante. Posso, no processo de
agir-pensar, falar-escrever, mudar de posição. Minha coerência assim, tão
necessária quanto antes, se faz com novos parâmetros. O impossível para mim é a
falta de coerência, mesmo reconhecendo a impossibilidade de uma coerência
absoluta. No fundo, esta qualidade ou esta virtude, a coerência, demanda de nós
a inserção num permanente processo de busca, exige de nós paciência e
humildade, virtudes também, no trato com os outros. E às vezes nos achamos, por
n razões, carentes dessas virtudes,
fundamentais ao exercício da outra, a coerência.
Nesta fase da retomada da Pedagogia, irei apanhando aspectos do
livro que tenham ou não provocado críticas ao longo desses anos, no sentido de
explicar-me melhor, de clarear ângulos, de afirmar e de reafirmar posições.
Falar um pouco da linguagem, do gosto
das metáforas, da marca machista com que escrevi a Pedagogia do Oprimido e, antes dela, Educação como prática de Liberdade, me parece não só importante mas
necessário.
Começarei exatamente pela linguagem
machista que marca todo o livro e de minha dívida a um sem-número de mulheres
norte-americanas que, de diferentes partes dos Estados Unidos, me escreveu, entre
fins de 1970 e começos de 1971, alguns meses depois que saiu a primeira edição
do livro em Nova York. Era como se elas tivessem combinado a remessa de suas
cartas críticas que me foram chegando às mãos em Genebra durante dois a três
meses, quase sem interrupção.
De modo geral, comentando o livro, o que
lhes parecia positivo nele e a contribuição que lhes trazia à sua luta,
falavam, invariavelmente, do que consideravam em mim uma grande contradição. É
que, diziam elas, com suas palavras, discutindo a opressão, a libertação,
criticando, com justa indignação, as estruturas opressoras, eu usava, porém,
uma linguagem machista, portanto discriminatória, em que não havia lugar para
as mulheres. Quase todas as que escreveram citavam um trecho ou outro do livro,
como o que agora, como exemplo, escolho eu mesmo: ‘Desta forma, aprofundando a
tomada de consciência da situação, os homens se ‘apropriam’ dela como realidade
histórica, por isto mesmo, capaz de ser transformada por eles’. E me
perguntavam: ‘Por que não, também, as mulheres?’.
Me lembro como se fosse agora que
estivesse lendo as duas ou três primeiras cartas que recebi, de como,
condicionado pela ideologia autoritária, machista, reagi. E é importante
salientar que, estando nos fins de 1970 e começos de 1971, eu já havia vivido
intensamente a experiência da luta política, já tinha cinco a seis anos de
exílio, já havia lido um mundo de obras sérias, mas, ao ler as primeiras
críticas que me chegavam, ainda me disse ou me repeti o ensinado na minha
meninice: ‘Ora, quando falo homem, a mulher necessariamente está incluída’. Em
certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim
mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da
verdade que havia na afirmação: ‘Quando falo homem, a mulher está incluída’. E
por que os homens não se acham incluídos quando dizemos ‘As mulheres estão
decididas a mudar o mundo’? Nenhum homem se acharia incluído no discurso de
nenhum orador ou no texto de nenhum autor que escrevesse: ‘As mulheres estão
decididas a mudar o mundo’. Da mesma forma como se espantam (os homens) quando
a um auditório quase totalmente feminino, com dois ou três homens apenas, digo:
‘Todas vocês deveriam’ etc. Para os homens presentes ou eu não conheço a sintaxe
da língua portuguesa ou estou procurando ‘brincar’ com eles. O impossível é que
se pensem incluídos no meu discurso. Como explicar, a não ser ideologicamente,
a regra segundo a qual se há duzentas mulheres numa sala e só um homem devo
dizer: ‘Eles todos são trabalhadores dedicados’?. Isto não é, na verdade, um
problema gramatical mas ideológico.
Neste sentido é que explicitei no começo
destes comentários o meu débito àquelas mulheres, cujas cartas infelizmente
perdi também, por me terem feito ver o quanto a linguagem tem de ideologia.
Escrevi então, a todas, uma a uma,
acusando suas cartas e agradecendo a excelente ajuda que me haviam dado. Daquela
data até hoje me refiro sempre a mulher e
homem ou seres humanos. Prefiro,
às vezes, enfeiar a frase explicitando, contudo, minha recusa à linguagem
machista.
Agora, ao escrever esta Pedagogia da Esperança, em que repenso a
alma e o corpo da Pedagogia do Oprimido,
solicitarei das editoras que superem a sua linguagem machista. E não se diga
que este é um problema menor porque, na verdade é um problema maior. Não se
diga que, sendo fundamental a mudança do mundo malvado, sua recriação, no
sentido de fazê-lo menos perverso, a discussão em torno da superação da fala
machista é de menor importância, sobretudo porque mulher não é classe social.
A discriminação da mulher, expressada e
feita pelo discurso machista e encarnada em práticas concretas é uma forma
colonial de tratá-la, incompatível, portanto, com qualquer posição
progressista, de mulher ou de homem, pouco importa.
A recusa à ideologia machista, que
implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível
em favor da mudança do mundo. Por isso mesmo, ao escrever ou falar uma
linguagem não mais colonial eu o faço não para agradar a mulheres ou desagradar
homens, mas para ser coerente com minha opção por aquele mundo menos malvado de
que falei antes. Da mesma forma como não escrevi o livro que ora revivo, para
ser simpático aos oprimidos como indivíduos e como classe e simplesmente
fustigar os opressores como indivíduos e como classe também. Escrevi o livro
como tarefa política, que entendi dever cumprir.
Não é puro idealismo, acrescente-se, não
esperar que o mundo mude radicalmente para que se vá mudando a linguagem. Mudar
a linguagem faz parte do processo de mudar o mundo. A relação entre
linguagem-pensamento-mundo é uma relação dialética, processual, contraditória.
É claro que a superação do discurso machista, como a superação de qualquer
discurso autoritário, exige ou nos coloca a necessidade de, concomitantemente
com o novo discurso, democrático, antidiscriminatório, nos engajarmos em
práticas também democráticas.
O que não é possível
é simplesmente fazer o discurso democrático, antidiscriminatório e ter uma
prática colonial.”